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Corto Maltese diz-lhe alguma coisa?
28.07.1992
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Corto Maltese, nome de marinheiro, personagem de histórias aos quadradinhos e aventureiro das sete partidas e cinco continentes, diz-lhe alguma coisa? E teve alguma influência na sua obra? Como leitor, é o amigo que gostaria de ter ou um personagem em que se reconhece?As respostas de uma mão-cheia de autores europeus que aceitaram responder ao inquérito-relâmpago feito pelo PÚBLICO.
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Cosey: Descoberta e revelação
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"Eu começava a dar os primeiros passos na banda desenhada quando descobri Corto Maltese há uns 20 anos na revista 'Pif'. Foi uma descoberta e uma revelação. O que mais me impressionou foi a possibilidade de evocar coisas sem as dizer verdadeiramente. Há um aspecto misterioso nunca dito, mas apenas adivinhado ou sugerido. É uma série muito forte na capacidade de excitar a imaginação do leitor. E isso é verdadeiro também no domínio gráfico. A influência de Hugo Pratt em mim é uma realidade, precisamente na manifestação desse fenómeno de nunca tentar explicar tudo, mas conservar uma certa parte de mistério. Nós nunca conhecemos tudo dos personagens de Pratt, e se calhar é isso que acontece com ele próprio, mas essa é uma questão que nunca tive oportunidade de lhe colocar. Corto, por seu lado, não é o arquétipo do herói. Se é verdade que há muitas coisas dele que não conhecemos, não é menos certo que não é um super-herói, ou mesmo um herói! Mas é, seguramente, alguém que gostaríamos de ter como amigo, porque temos a certeza de que ele existe."
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Régis Loisel: Fantástico e sedutor
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"Levei muitos tempo a abordar Corto Maltese. Foram necessários cinco anos e a pressão de um amigo para me impelir a ler as aventuras do personagem, de que eu no princípio não gostava, talvez por uma espécie de preconceito. Depois, a poesia e a filosofia dos personagens seduziu-me. Posso dizer que há 15 anos que adoro Corto. Aprecio imenso o grafismo de Pratt, porque, com poucos meios e um traço simples, ele fez grandes coisas. No entanto, não sinto que ele tenha tido qualquer influência sobre o meu próprio estilo. É claro que eu gostaria de ter um amigo como Corto, com o qual simultaneamente me identifico. É fantástico e sedutor, um pouco místico. A magia e o esoterismo da obra são muito, muito interessantes e, particularmente, interessam-me bastante."
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M. Prado: Um amigo interessante
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"Foi um pouco através dele que cheguei à banda desenhada, ao descobrir a tradição narrativa, o sentido de uma aventura bem contada e o conhecimento de algo que eu já lia nos clássicos. É algo de muito bom. Pratt é um homem que eu sempre admirei, embora não possa dizer que ele - pelo menos conscientemente - me tenha influenciado. Tenho consciência de que a obra "pura" não existe . É impossível encontrar um criador que não tenha sido influenciado por outros. Mas, no meu caso, isso nunca aconteceu de forma directa. Gostaria, evidentemente, de ter um amigo como Corto Maltese. Porquê? Pela simples razão de que é um homem que retoma essa sabedoria natural que não se aprende nas universidades ou nos livros, mas pelo facto de se correr mundo e conhecer gente. E porque é um grande aventureiro, mas bastante sofisticado e culto. Na verdade, é um amigo meu muito interessante."
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Luís Louro: Temperamento especial
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Quando li as primeiras histórias no Tintin, não conseguia compreender por que motivo se dizia tão bem de uma coisa que era tão mal desenhada! Só mais tarde me apercebi da importância dos argumentos nas histórias de Hugo Pratt e do seu desenho estilizado. No entanto, não posso dizer que Corto Maltese esteja muito ligado à minha infância. Pela mesma ordem de ideias, não me sinto identificado no meu próprio trabalho com Hugo Pratt. Confesso que chega a chocar-me ver algumas vinhetas verdadeiramente espectaculares ao lado de outras que parecem ter sido desenhadas a esferográfica. Quanto a Corto Maltese, tem muitos defeitos, mas é muito natural. O seu mau feitio faz dele um ser muito humano, com um temperamento especial. O seu modo de estar na vida é muito especial. Se ele existisse realmente, era o tipo de pessoa com quem uma relação de amizade teria muito a dar."
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Tito: Menos fascinante que o autor
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"Corto Maltese nunca me agradou muito, porque prefiro histórias passadas em períodos mais contemporâneos. Mas é inegável que Hugo Pratt - e não apenas devido a este personagem - pertence a uma geração que conferiu à banda desenhada uma certa imagem de nobreza que ela não tinha. Fez leitores que antes não tinha ou que começaram a apreciar a banda desenhada através do seu contributo para criar uma imagem adulta da BD. Não me sinto influenciado por Hugo Pratt, um autor que gosto de ler, pois é um bom contador de histórias em que os próprios personagens cultivam a sua imagem pessoal. Mas as minhas influências são mais clássicas, como é o caso de Giraud [criador da série "Forte Navajo"] ou Bourgeon ["Os Passageiros do Vento"], autores que leio e releio vezes sem fim. Gostaria de ter Corto como um amigo, sobretudo pela dimensão fascinante que Pratt soube criar nele. Para ser sincero, tenho de confessar que Corto fascina-me muito menos do que o seu autor. Talvez pelo meu espírito cartesiano, acredito que Corto Maltese não seria o que é se não fosse concebido e desenvolvido por um homem como Pratt."
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Daniel Torres: Clássico moderno
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"Corto Maltese é a aventura. Conheci-o quando tinha 12 ou 13 anos e gostei logo muito dele, o estilo do personagem... Não sofri grande influência estética de Hugo Pratt, mas do ponto de vista espiritual, sem dúvida que sim. É claro que hoje continuo a apreciar o seu estilo gráfico, embora me tenham deixado marcas mais vivas os clássicos norte-americanos, como Milton Caniff. Pode dizer-se de Pratt que ele é um clássico moderno. Quanto a Corto, é tanto um modelo de herói como alguém que eu gostaria de ter como amigo, sobretudo para poder falar com ele sobre tantas coisas que nos interessam aos dois. É um personagem com um papel e uma imagem mítica muito vincadas. Já o disse: fala-se em aventura e pensa-se de imediato em Corto Maltese."
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Didier Comès: Herói muito humano
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"É o personagem ideal de banda desenhada. Quando travei conhecimento com Pratt, ele já fazia tudo o que eu gostaria de fazer, o que facilitou a nossa aproximação. É um amigo, que para mais trabalha, tal como eu, o preto e branco. Tematicamente, o que é mais fabuloso e extraordinário na obra de Pratt é o facto de ele nos fazer sonhar. Visto como um herói, Corto Maltese não é muito interessante. Ele nem sequer é sempre o grande herói, como na tradição norte-americana. É alguém que está muito próximo de nós, muito humano. Mais importante do que isso, repito, é a capacidade que alguém tem de me fazer sonhar. E, de um ponto de vista gráfico, ninguém pode deixar de se sentir apaixonado pelo desenho de Pratt.
Dito isto, Corto é, naturalmente, alguém a quem eu gostaria de poder chamar amigo."
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