| Regresso ao Passado
Por Vasco T. Meneses
Algumas das estrelas mais reluzentes de Hollywood - Katharine Hepburn, Cary Grant, Henry Fonda ou Ginger Rogers - e um punhado de cineastas grandiosos - Welles, Hitchcock, Ford ou Hawks - vao desfilar pelo PÚBLICO. É já a partir de 7 de Outubro e a culpa é da nova colecçao de DVD Clássicos Público, uma viagem a época dourada do cinema americano.
Katharine Hepburn, Cary Grant, Fred Astaire, Ginger Rogers, Henry Fonda, John Wayne, Robert Mitchum ou Carole Lombard: é a luz destas estrelas que vai passar a iluminar, já a partir do dia 7 de Outubro, as quintas-feiras do PÚBLICO. Um elenco luxuoso que desfilará pela nova colecçao de DVD Clássicos Público, cuja proposta passa por desenhar um mapa da Hollywood das décadas de 30 a 50, o local e o tempo em que se fizeram os melhores e mais gloriosos filmes do cinema americano, a sua chamada "idade de ouro". Por isso, títulos míticos nao faltarao, tal como exemplos de alguns dos maiores cineastas de sempre: Alfred Hitchcock, John Ford, Howard Hawks, Nicholas Ray, Orson Welles ou George Cukor. E a sessao de abertura desta "gala" nao podia ser mais esclarecedora: "O Mundo a Seus Pés/ Citizen Kane" (1941), a primeira obra (e obra-prima absoluta) de Orson Welles, eterno vencedor das listas cíclicas de melhores filmes de todos os tempos. A história do magnata Charles Foster Kane (uma figura inspirada em William Randolph Hearst) e do enigma de "Rosebud" é um dos momentos mais marcantes da história da 7a Arte, salto qualitativo que revolucionou a linguagem cinematográfica, quer pela sublimaçao de técnicas anteriores - como os fundidos -, quer pelo avanço, em apoteose, de matéria nova (os planos- sequencia, por exemplo).
Logo a seguir vem outro objecto fulgurante: "As Duas Feras" (1938), de Howard Hawks, "o mais americano de todos os cineastas" e o exemplo supremo da teoria de autor, transportando uma visao pessoal e preservando a sua assinatura inconfundível por uma série de géneros, do filme de "gangsters" ou "noir" a guerra e aventura, passando até pela ficçao científica, deixando sempre uma obra-prima intemporal em cada caso. Aqui encontramo-lo num dos seus territórios de eleiçao, a comédia "screwball" (a dos diálogos trocados como rajadas de balas e situaçoes tresloucadas), encenando de forma genial a guerra dos sexos, com Kath rine Hepburn a virar do avesso o mundo de Cary Grant, ajudando pelo caminho a subverter noçoes dominantes de moralidade e sexualidade. Depois, chega "Os Dominadores" (1949), um épico com toda a majestosidade solene do "homem que fazia 'westerns'", John Ford, pioneiro cuja vida e obra se confundem com a própria trajectória do cinema, do nascimento ao fim da era clássica. E na semana seguinte, John Wayne será substituído por outro "monstro" icónico, o gorila gigante de "King Kong" (1933), clássico, ainda hoje imbatível, do cinema fantástico e modelo paradigmático de toda a tradiçao posterior de "monster movies", responsável por imagens que ficarao para sempre gravadas na memória do espectador, como Kong no topo do Empire State Building, com o objecto do seu desejo - Fay Wray, a mae das "scream queens" - na mao.
É um começo estonteante, mas as "atracçoes especiais" da colecçao vao muito mais além deste quarteto, pois para a frente ainda sobra uma parada de títulos lendários. "Os Filhos da Noite" (1949), por exemplo, o filme de estreia de Nicholas Ray, ponte essencial para a passagem do classicismo para a modernidade. O poeta dos "rebeldes sem causa" assina aí o arquétipo dos filmes de jovens namorados em fuga, a braços com a lei, e mais tarde reencontrá-lo-emos com outra bela história de amor, "Cega Paixao" (1951), desta vez sob o formato de "film noir".
Um universo que estará bem representado ao longo da colecçao, já que a ele (e as suas figuras dúplices, intrigas tortuosas e ambiguidade moral) se voltará por mais tres vezes, sempre na companhia da sonolencia animal de Robert Mitchum: primeiro, "Vidas Inquietas" (1953), uma das obras máximas de Otto Preminger; depois, o incontornável "O Arrependido" (1947), por um mestre da série B, Jacques Tourneur; e finalmente "Macau" (1952), um dos últimos filmes de um grande senhor dos tempos do mudo, Josef von Sternberg.
E como o objectivo é traçar um retrato conciso de uma época de eleiçao, este regresso ao passado nao podia deixar de passar em revista os mais diversos géneros. Assim, na comédia, espaço ainda para uma incursao de Alfred Hitchcock pelos terrenos da comédia romântica destrambelhada, com "O Sr. e a Sra. Smith" (1941), para os desvarios dos inimitáveis (e geniais) irmaos Marx, em "Um Criado ao Seu Dispor" (1938), ou para algo com um travo mais melodramático: o magnífico "Sylvia Scarlett" (1936), de George Cukor, outra vez com Grant e Hepburn (aqui, disfarçada de rapaz) a abordar, com suprema subtileza, temas tabu como a homossexualidade.
Também o musical estará presente, com "Chapéu Alto" (1935), uma das parcerias mais felizes do par Fred Astaire-Ginger Rogers, sob a direcçao efervescente de Mark Sandrich. E o mesmo vale para o filme de época, por intermédio da saga familiar de "O Quarto Mandamento" (1942), a segunda obra (igualmente brilhante) de Welles. Mas há mais repetentes: Ford, Hawks, Hitchcock e Tourneur. O primeiro regressa com mais dois "westerns" - "Forte Apache" (1948), o capítulo inicial da sua aclamada "Trilogia da Cavalaria", a juntar uma dupla de actores-"fétiche", Wayne e Henry Fonda, e "A Caravana Perdida" (1950). De Hawks também poderemos ver outra aventura no Oeste, "Céu Aberto", por onde passa o seu universo típico de companheirismo e harmonia entre os homens. Já quanto a Hitchcock e Tourneur, nao vao deixar por maos alheias os seus créditos como exímios criadores de ambientes de medo e tensao. Provas? "Suspeita" (1941), exercício de "suspense" perfeito, e "A Pantera" (1942), terror atmosférico que se joga com as armas da elipse e da sugestao. |