Miguel diz que nunca precisou de estudar muito
28 de Outubro de 2003
Por Isabel Leiria

Miguel Morin, 19 anos feitos há três semanas, lembra- se perfeitamente do dia em que soube que tinha ganho o prémio Bento de Jesus Caraça, atribuído ao melhor trabalho de Matemática. “À noite, nessa terça-feira, fomos todos [família] jantar fora e o meu pai estava sempre a chamar-me ‘meu geniozinho'.” “À procura de um génio” é mesmo o nome dado ao concurso, que se destina aos alunos que, nos exames nacionais do 12º ano de Matemática ou de Física tiverem tido nota igual ou superior a 18 valores. Uma décima a mais na prova de Matemática (a Física, o resultado foi um 17) e o incentivo do seu professor do Liceu Francês foram suficientes para levar Miguel Morin a aprofundar o tema dos “algoritmos complexos”. “Admito que para neófitos possa parecer complicado…”
Apesar das notas e do prémio, génio é definitivamente coisa que o aluno não se considera. Muito menos, diz, depois de ter conhecido os seus colegas do Lycée Pierre Fermant, em Toulouse, onde se prepara actualmente para as provas nacionais que dão acesso ao ensino superior francês. “Aí sim, na minha aula existem verdadeiros génios.”
Se sempre teve notas boas — responde que sim com um humilde encolher de ombros e abanar de cabeça —, isso deve-se à capacidade de “assimilar a matéria com eficácia”. Garante que nunca foi pessoa de estudar muito e defende que tão importante como a atitude do aluno é o papel do professor. “É um caminho que se faz a dois.” E se o professor for como o que teve no 12º, daqueles que “têm um dom para ensinar”, então tudo se torna mais fácil.
Filho de uma professora de Matemática — mas a quem não tinha, normalmente, necessidade de recorrer para receber umas explicações — e de um engenheiro, Miguel Morin acrescenta ainda que é importante “aproveitar os anos de juventude”. E, de facto, mesmo que quisesse estudar mais não havia horas num dia para realizar todas as actividades que gosta de fazer. “Conhecer pessoas” é o passatempo favorito, a que se junta o Taekwondo, a flauta transversal, “surf”, “skate”, cinema e concertos.
“Este ano [o segundo do curso preparatório para o ensino superior] já não tenho tempo para tanta coisa. É mesmo a sério.” Aulas entre as oito e as 18h00 e aos sábados de manhã, testes de três em três semanas e a responsabilidade de ter sido integrado na turma “que tem a estrelinha”. Miguel Morin desenha “MF*” e explica: “No 1º ano do curso [em que a Matemática e a Física são as disciplinas mais importantes], havia três turmas, com um total de 50 alunos. No 2º, foram juntos na mesma classe os dez melhores. Os professores dão mais matéria e preparam mesmo para as melhores escolas superiores.”
Foi à procura do melhor ensino que Miguel decidiu ir estudar para o estrangeiro e é para uma das mais prestigiadas instituições francesas que quer entrar: a École Normale Supérieure, vocacionada para o desenvolvimento da investigação. Não pensa muito no futuro e não sabe ainda se a carreira vai ser iniciada no estrangeiro ou em Portugal. “Só sei que um dia hei-de voltar”, responde. Por agora, dá como positiva a experiência de viver numa cidade estrangeira que não conhecia. “Tem-se a impressão de viver mais.”
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