
É o último grande artista da nova geração a abandonar o futebol português. Ricardo Quaresma foi uma das poucas razões para ir ao futebol em Portugal nos anos mais recentes. Os números das duas últimas temporadas no FC Porto são impressionantes. Catorze golos e 24 assistências fizeram-no o jogador mais influente da equipa, com participação directa num terço dos golos do FC Porto no campeonato português. A sua importância no clube tricampeão foi tanta que muitas vezes se falou de Quaresma-dependência e quase sempre com razão.
O
Mustang (como também é conhecido) tomou nos ombros a responsabilidade de fazer a diferença: foi quem mais rematou e cruzou, mais assistências realizou, mais cantos e livres cobrou (tanto no Porto como no campeonato português). Foi ainda o único portista a marcar de livre directo nas duas mais recentes edições do campeonato; aquele que mais faltas sofreu e mais cartões amarelos tirou aos seus adversários. Mas para lá dos números, Quaresma levantou muitos estádios portugueses, com outro tipo de “números”: fintas estonteantes, cruzamentos teleguiados, remates de trivela, golos-monumento — na selecção inclusivé.
Apesar do seu desempenho, sempre dividiu as opiniões e chegou mesmo a ser fortemente assobiado pelos adeptos do FC Porto na época passada. Talvez porque Quaresma não é um jogador normal. Não lê o jogo, sente-o. Não pensa o futebol, intui-o. O seu futebol é selvagem, os anos passam mas continua em estado puro, cru, mais próprio da rua do que dos estádios. Por isso lhe chamam
Mustang. É quase sempre incapaz de alterar a forma de jogar em função do seu momento de forma ou do adversário que enfrenta. Joga demasiado para a plateia que nem sempre gosta do que vê, porque tem tendência para os excessos de individualismo e para perder a bola amiúde. Parece por vezes ser o único elemento de uma quarta equipa em campo: o Quaresma FC. Muitos treinadores o rejeitam: Rijkaard não gostou dele no Barcelona. Scolari nunca lhe deu uma verdadeira oportunidade na Selecção Portuguesa. Sacchi considera-o um jogador banal.
A chegada a Itália encerra uma enorme curiosidade: Mourinho vencerá o grande desafio de “domar” o
Mustang, sem apagar a chama de um dos maiores talentos do futebol mundial? Para Quaresma, o desafio é ainda maior: provar que pode mesmo estar entre os melhores.