“Mestre incontornável dos técnicos de som durante décadas”, nas palavras de Rui Vieira Nery, Hugo Ribeiro acompanhou a partir de meados dos anos 40 as gravações de inúmeros talentos da música portuguesa, como Carlos Paredes, Amália Rodrigues ou Alfredo Marceneiro, nos estúdios da Valentim de Carvalho. Hoje regressa ao passado para recordar algumas histórias, como a vez em que tapou os olhos a Alfredo Marceneiro para o ajudar a cantar o fado.
PÚBLICO – Quando e como começou a trabalhar na música?
HUGO RIBEIRO – Sou de Vila Real de Santo António, fi z lá o liceu e depois vim para cá [Lisboa] estudar. Um primo apresentou-me ao Valentim de Carvalho e eu fui trabalhar para os estúdios. Comecei a ajudar um senhor que fazia gravações em 78 rotações. Aquilo quando se gravava, não se podia ouvir. Era um drama. Ensaiavase, estava bem, depois tocava-se e fi cava gravado. Tirava-se o disco, metia-se numa caixa e mandava-se para Inglaterra. Quer dizer, o disco nunca podia ser ouvido. Só podia ser ouvido depois de processado, se não estragava-se. Ficávamos perto de um mês à espera de saber se o disco tinha fi cado bom ou não.
P. – Acompanhou as gravações de Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues, Carlos Paredes e muitos outros. Nessas sessões sentia-se que se estavam a escrever páginas da história da música portuguesa?
R. – Em certos casos sim, como no caso da Amália e do Carlos Paredes também. Lembro-me ainda do caso do Lopes-Graça que era, se calhar, o músico mais conhecido na altura, na música clássica. E gravei também uma sinfonia do Joly Braga Santos, premiada até pela UNESCO, que deu um trabalho enorme. Foi com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, reforçada pela Orquestra Sinfónica do Porto. O Joly Braga Santos assistiu à gravação, com o maestro e aquilo tudo, a sinfonia foi editada e enviada para a UNESCO. Nesse ano, a música clássica sinfónica ganhou o prémio da UNESCO e foi uma coisa boa. Para mim, foi bom porque eu é que tinha gravado, mas foi sobretudo bom para o Joly, dado o seu valor como músico. P. – Recorda-se de algum momento marcante das gravações a que assistiu? R. – O Alfredo Marceneiro tem um disco chamado O fabuloso Marceneiro, que foi gravado no Teatro Taborda, onde não tínhamos grandes meios. Ele não podia gravar com luz – cantava de noite, nas casas de fado, onde não se via quase nada – e no teatro havia uma janela que não se fechava completamente, deixando entrar muita luz. E ele dizia: “Ó Ribeirinho, eu não posso de maneira nenhuma gravar aqui.” Era preciso ele ter inspiração e eu estava a ver que se ia embora e não cantava. Como ele usava um lenço ao pescoço, pedi-lho emprestado. Pus-lhe o lenço nos olhos e ele disse: “Ah que bom! Agora é que não vejo mesmo nada.” “Agora não saia da frente do microfone”, disse-lhe eu. Gravou os 12 fados seguidos e, no fi m, disse: “Se não me tapasses os olhos, eu não tinha gravado esses 12 pratos de sopa!” Ele gostava muito de sopa.