Uma das coisas que me dá prazer é pôr as pessoas que só gostam de Amália ou do Marceneiro a dizer “o Zeca também é bom”.
PÚBLICO – Como surgiu a ideia de criar esta espécie de antologia que abrange 50 anos de música popular portuguesa?
DAVID FERREIRA – Temos colaborado com o PÚBLICO em vários projectos e a ideia de criar uma colecção que traçasse uma história da música popular portuguesa surgiu já há alguns anos. Com o tempo a ideia foi ganhando peso. Porém, só agora defi nimos a fórmula fi nal da colecção. Chegou a pensar-se em algo estritamente cronológico mas o meu colega Eurico Nobre acabou por propor uma solução que foi a adoptada e que nos permite, em 10 semanas, apresentar 10 capítulos da música popular portuguesa, divididos em três subcapítulos. Este tipo de organização deunos uma grande fl exibilidade em termos da organização de cada CD e permitiu-nos jogar com as músicas seleccionadas, tendo em conta tanto a continuidade como o contraste entre elas.
Como foram seleccionadas as músicas que integram a colecção? Eu e o Eurico Nobre temos a sorte de poder trabalhar a partir do catálogo da Emi, que é o catálogo mais forte de música portuguesa a partir de 1983, e do catálogo da Valentim de Carvalho, que é o mais forte até 1983. Isso, porém, não nos limitou e fomos procurar coisas de outras editoras que seriam indispensáveis que aqui estivessem, como é o caso, por exemplo, da versão original do Etelvina, do Sérgio Godinho, que vem no primeiro CD.
É evidente que há uma parte de gosto pessoal nesta colecção, pois a última coisa que me apetecia era fazer uma colecção asséptica baseada em critérios estatísticos. Contudo, se uma parte da lógica de selecção é determinada por conversas minhas e do Eurico e por um trabalho sobre a memória, o essencial é ouvir as músicas e perceber como se pode chegar a um resultado harmonioso. Num dos textos que acompanham os CD diz que existem surpresas na colecção…
Como editor nada me dá mais prazer do que revelar às pessoas algo que elas não estão à espera. Uma das coisas que me dá prazer é pôr as pessoas que só gostam de Amália ou do Marceneiro a dizer “o Zeca também é bom”. A edição e a comunicação têm uma função em comum que é o de revelar, de conduzir as pessoas.
Nesta colecção encontramos dois tipos de surpresa. A escolha de um músico como o JP Simões para fechar o primeiro CD, por exemplo, será uma surpresa para muitas pessoas. Outra das surpresas já planeadas é a inclusão na colecção de trechos que nunca saíram em CD – é o caso de registos de noites de fados que encontrei e que foram gravados em discos de 45 rotações, mas nunca foram editados em CD. São quase estreias. Isso dá imenso prazer e permite equilibrar entre aquilo que as pessoas reconhecem imediatamente e aquilo que não reconhecem mas fi cam a gostar. Se tivesse que caracterizar, em poucas palavras, cada uma das décadas representadas na colecção, o que diria?
Nos anos 50, o tempo andava mais devagar. Uma parte substancial do material gravado vinha do fado e de algum repertório que era criado para a revista: por isso, muitas vezes chegava-se ao disco depois de os temas já terem vida própria. Na década de 60 dá-se o encontro de Amália com Alain Oulman no disco Busto e defi ne-se uma nova matriz de fado. Há também a primeira tentativa frustrada de um pop português, que é o yé yé, e começam a gravar-se temas contra o poder político. O Zeca surge com Os vampiros, o Adriano Correia de Oliveira com a Trova do vento que passa… Portanto há uma geração a caminho do confronto político. Os anos 70 são os da canção de intervenção. Aquilo que nos anos 60 era o Adriano Correia de Oliveira e o Zeca é reforçado pelo José Mário Branco, pelo Sérgio Godinho, pelo Vitorino, pelo Fausto… É também a grande época do LP. Nos anos 60, excepção feita à Amália, ao Zeca e ao Carlos Paredes, a regra era o EP de 4 canções.
A chegada do pop a Portugal dáse na década de 80. Há liberdade e o combate político deixou de ser prioridade. Apesar disso, a música popular portuguesa não desaparece e surgem discos excelentes do Fausto, do Vitorino, do Sérgio Godinho e do José Mário Branco.
Nos anos 80 dá-se uma explosão do consumo de discos e as grandes editoras estrangeiras entram em Portugal. Todavia, o apogeu do mercado discográfi co ocorre nos anos 90. A grande novidade desta década é a chegada do hip hop com o disco Rapública. Surgem também os primeiros grandes sucessos cantados em inglês com os Silence 4 e The Gift. Há um renascimento do fado com a Mísia e o Camané e em paralelo com isto há o amadurecimento dos sobreviventes dos anos 80 – Rui Veloso, Xutos & Pontapés, GNR – e a inesperada aventura nacional e internacional dos Madredeus.
Actualmente temos um pouco de tudo isto. Temos os grandes cantores e intérpretes. Assistimos à consagração dos grandes do hip hop como Da Weasel e Sam The Kid. É um momento de enorme vitalidade do fado – surgem novos e grandes fadistas, muitos dos quais ainda não gravaram discos. E depois há a questão vital da lusofonia. Cada vez mais teremos que falar de música lusófona em vez de música portuguesa. O multiculturalismo é vital e é importante que o Estado se aperceba disso.
Fala-se muitas vezes do divórcio entre o público e a música made in Portugal. Os músicos apelam constantemente à necessidade de haver mais música cantada em português nas rádios. Os portugueses ouvem música portuguesa?
Os portugueses ouvem muita música portuguesa e dois fenómenos conturbados demonstram isso mesmo. O primeiro é a quantidade de concertos esgotados de músicos portugueses e brasileiros. O segundo são os números da Associação Fonográfi ca Portuguesa que demonstram que, mesmo quando a música portuguesa corresponde a uma parcela menor do mercado, a esmagadora maioria dos discos que vendem acima dos 120 mil exemplares são cantados em português e acima do 200 mil exemplares são só portugueses. Isso signifi ca que quando as rádios dão um “empurrãozinho” as coisas funcionam. Se as grandes rádios corressem riscos e apostassem em mais dois ou três novos artistas portugueses por ano as coisas correriam bastante melhor.