Natural de Angola, Kalaf é músico, spoken word artist e cofundador da editora Enchufada. Trabalha há cerca de nove anos na área da música e tem participado em vários projectos, como os Bulllet, Loopless, 1 UIK Project ou Cooltrain Crew. Apelidado de “poeta e mestre da palavra falada”, explica em entrevista como “o futuro da música portuguesa está a ser construído hoje”.
PÚBLICO – Como surgiu o seu interesse pela música?
KALAF – Entrei na música porque apetecia-me fazer parte do movimento que estava na altura a crescer – a chamada música urbana. Mas não no sentido de cantor ou performer. A primeira razão foi querer ouvir certo tipo de música e não a encontrar aqui – a spoken word electrónica. De repente deu-me vontade de fazer algo parecido e comecei. Qual é a sua perspectiva sobre o actual momento da música portuguesa?
É um bom momento.
Essencialmente estamos naquela fase mais democrática da música, a fase do “faça você mesmo”. É uma altura em que o mundo todo vive este momento. Hoje alguém que está no seu quarto com um software básico e um computador razoável consegue fazer música e realizar os seus sonhos.
Em que medida a música portuguesa de hoje é infl uenciada pela música dos PALOP? Essa infl uência existe e isso até é mais claro para quem vem de fora e consegue distinguir um som mais característico do meu país ou de outro qualquer. Eu vejo que Rão Kyao, Paulo de Carvalho, Zeca Afonso são músicos que foram buscar infl uências a todo o lado. Por isso, essa infl uência sempre existiu. Vivemos várias fases dessa infl uência, dessa troca. Hoje é talvez mais gritante. E é essa a premissa do hip-hop. Vive dos outros géneros, é a cultura do sampling. Como é quase impossível vivermos num mundo isolado, em silêncio total, existe sempre infl uência, nem que seja para fazer exactamente o contrário. Qual é, na sua opinião, o futuro da música portuguesa? O futuro é o mundo. A grande questão que sempre se colocou é se a música portuguesa é exportável. O futuro da música portuguesa passa muito por encontrar na sua própria génese aquilo que a liga às restantes músicas. Porque todas as músicas do mundo estão interligadas. O futuro só se torna concreto quando temos consciência do que estamos a fazer hoje. É importante que os músicos se foquem dentro de si, daquilo que os distingue musicalmente. O futuro da música portuguesa está a ser construído hoje. Basta estarmos atentos e experienciarmos em pleno o que se está a passar hoje para termos a certeza de que o futuro será bom. E deixarmos de nos preocupar com as músicas dos outros países.