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(1963)

Os Pássaros
A assustadora vingança da natureza

A partir da ideia de aves vulgares que atacam pessoas sem motivo aparente, o mestre do suspense criou um thriller clássico,
Os Pássaros
. Nele, “Tippi” Hedren e Rod Taylor protagonizam um casal cuja relação amorosa é sobressaltada por inesperados agressores.

No trailer de Os Pássaros, Alfred Hitchcock reflecte ironicamente sobre a relação entre os homens e os pássaros. Desde sempre, o homem dominou as aves, colocou-as em gaiolas e embalsamou-as como troféus. O que aconteceria se, subitamente, todos os pássaros se unissem e se revoltassem contra nós? É essa a pergunta principal de Os Pássaros, à qual uma das personagens responde que não teríamos a mínima hipótese de sobreviver.

Hitchcock realizou Os Pássaros / The Birds somente três anos depois do seu último filme, Psico (1960). O seu ritmo frenético (uma média de um filme por ano) diminuiu a partir deste momento e o realizador entrou, assim, na fase final da sua carreira. Mas, antes, transpôs para o grande ecrã uma história apocalíptica sobre inexplicáveis ataques de pássaros numa pequena e pacífica localidade no Norte da Califórnia, Bodega Bay.

A ideia do filme surgiu a partir do conto homónimo da escritora inglesa Daphne du Maurier e de alguns recortes de notícias sobre o comportamento invulgar de aves que Hitch reuniu. Interessava-lhe sobretudo imaginar aves comuns a atacar pessoas e escolheu o romancista Salvatore Lombino, conhecido pelo pseudónimo de Ed McBain, para escrever o guião (assinando-o com outro pseudónimo, Evan Hunter).

Nas palavras de Hitchcock, este foi “o mais complicado filme que jamais se fez” (pelo menos até à década de 60). Cerca de 1360 planos, 370 feitos especiais e uma imagem final composta por mais de 30 elementos distintos tornaram Os Pássaros num filme pioneiro, criado numa época em que não era possível ainda manipular as imagens através de computadores. Este aspecto valeu a Ubi Werk uma nomeação para o Oscar de Melhores Efeitos Visuais, que Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, arrebatou. Além disso, foram utilizados diferentes tipos de pássaros para simular os ataques: reais, treinados, mecânicos, embalsamados.

Para protagonizar este thriller, o mestre do suspense elegeu “Tippi” Hedren, a última das suas míticas actrizes loiras. Na verdade, este foi o primeiro trabalho de “Tippi” como protagonista de um filme. Hitch descobriu-a no anúncio de uma bebida adelgaçante, onde a bela mulher ouvia um assobio, virava-se e sorria –uma piada pessoal que o realizador incluiu no filme.

No início, Os Pássaros assemelha-se a uma comédia romântica, com o encontro casual de Melanie Daniels (“Tippi” Hedren) e Mitch Brenner (Rod Taylor) numa loja de animais (onde Hitchcock faz a sua típica aparição). Mas, quando Melanie viaja para Bodega Bay com o objectivo de surpreender Mitch, a história sofre uma inesperada reviravolta. Uma gaivota ataca, sem motivo aparente, Melanie e a sua estadia em Bodega Bay torna-se mais prolongada do que previra. Progressivamente, sucedem-se novos ataques de gaivotas, corvos e outras aves, causando o desespero das personagens.

“De repente, havia pássaros por todo o lado”, grita, chocada, a jovem Cathy (Veronica Cartwright), após ver um bando de aves assassinar a sua professora. Torna-se cada vez mais visível o sangue, a destruição, os mortos. E Hitch recorre a sucessivos e rápidos grandes planos para mostrar as vítimas deste mal misterioso. O horror visual é combinado com um silêncio interrompido apenas pelos ruídos das aves, que guincham impacientes (sons artificiais, criados electronicamente, são a única banda sonora do filme).

No fim, o aguardado e tradicional “The End” não surge no ecrã. Hitchcock deixa, assim, uma mensagem aos seus espectadores: o terror causado pela revolta dos pássaros não termina. É esta a versão hitchcockiana do dia do Juízo Final.

Ana Filipa Gaspar

 
Título original The Birds
Com Rod Taylor, “Tippi” Hedren, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Veronica Cartwright
Argumento de Evan Hunter (baseado no conto homónimo de Daphne du Maurier)
Filme original a cores
 

“O projecto geral do filme que tive desde o começo foi inspirado pelo quadro O Grito, de Edvard Munch (...) A sensação de desolação e loucura numa espécie de solidão que exprime um estado interior.
Era exactamente o que desejava Hitchcock.”

Robert Boyle, responsável pelos cenários de Os Pássaros