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Vinte obras-primas da literatura policial
Por Luis Miguel Queirós
Considerada durante muito tempo um género literário menor, não obstante a sua persistente e crescente popularidade, a ficção policial entrou definitivamente no cânone dos estudos literários. Contam-se hoje por milhares, em todo o Mundo, as teses académicas dedicadas aos seus vários períodos, movimentos e autores. A Colecção 9 mm, que o PÚBLICO vai lançar no próximo dia 29, com a publicação de Um Estudo em Vermelho o romance em que Conan Doyle cria a personagem de Sherlock Holmes , dar-lhe-á a ler, ao longo de 20 semanas, algumas das mais memoráveis obras do género, desde a clássica novela de dedução da chamada idade de ouro do policial, com John Dickson Carr ou Anthony Berkeley, passando pelo estilo mais realista de autores como Dashiell Hammett ou Ross MacDonald que impuseram o modelo americano do detective privado duro, solitário e ocasionalmente sentimental , até nomes fundadores do policial moderno, como os de Patricia Highsmith ou Ruth Rendell.
A novela policial, que o poeta W. H. Auden considerava tão viciante como o tabaco, fascinou tanto alguns dos grandes escritores do século XX, que eles próprios não resistiram a experimentar a mão, como o argentino Jorge Luis Borges, o francês Boris Vian, o inglês Kingsley Amis ou o italiano Umberto Eco, cujo romance O Nome da Rosa, que abriu a colecção Mil Folhas do PÚBLICO, pode legitimamente ser considerado, entre eventuais outras coisas, um romance policial. A 9 mm inclui, aliás, um livro notável do poeta irlandês Cecil Day Lewis, pai do actor Daniel Day Lewis, que alternava a sua produção lírica com a escrita de novelas policiais, assinando estas últimas com o pseudónimo Nicholas Blake.
E, se alargarmos um pouco mais o conceito de literatura policial, então começa a caber quase tudo lá dentro, desde o romance de aventuras que utiliza o mistério e o suspense, passando pelos livros de espionagem, até às novelas de terror.
Também na identificação dos ilustres precedentes da literatura policial propriamente dita, se há quem se fique, cautelosamente, pelo final do século XVIII e pela primeira metade do século XIX, evocando autores como William Godwin ou o próprio Charles Dickens para além, claro, de Edgar Allan Poe, que, com Os Crimes da Rua Morgue, criou, em 1841, o modelo da história policial: um detective que soluciona um crime , há também quem vá bastante mais atrás e descubra, por exemplo, enredos policiais na própria Bíblia.
Diga-se, desde já, que a Colecção 9 mm deixou deliberadamente de fora os vários subgéneros do policial, uma vez que todos eles forneceriam obras mais do que suficientes, em quantidade e qualidade, para que se organizassem séries autónomas: pense-se, por exemplo, em Graham Greene, Eric Ambler ou John Le Carré, no romance de espionagem, ou num escritor como Stephen King, na temática do terror.
Também não se procurou recuar demasiado, incluindo nomes como Poe, Wilkie Collins ou o francês Emile Gaborieau. Os precursores do género ficam simbolicamente representados por Arthur Conan Doyle, que, com o seu Sherlock Holmes, influenciou decisivamente o este tipo literário tal como o hoje o conhecemos.
Uma escolha centrada nos clássicos
Prescindiu-se também da literatura policial mais recente, ressalvadas raras excepções, entre as quais se contam Highsmith e Rendell, que, em certo sentido, podem já ser consideradas autoras clássicas. Vinte volumes não é muito para abarcar o essencial do policial dito clássico, e seria um número irrisório se a escolha pretendesse chegar até ao presente. Só para se ter uma ideia, foi recentemente publicada uma enciclopédia da “moderna ficção policial” que inventaria cerca de dez mil obras de mais de 500 autores.
Falar de clássicos nesta área é sempre um tanto equívoco, mas o termo é aqui utilizado em alguns sentidos precisos. Escolheram-se, por regra, livros que obedecem, mesmo quando o parodiam, ao modelo que popularizou o género: ou seja, a novela de dedução, com um detective que soluciona um crime a partir de pistas que, mais ou menos generosamente, e mais ou menos honestamente, o autor vai dando a conhecer ao leitor, permitindo-lhe, pelo menos em teoria, antecipar-se à revelação final. As principais excepções são os livros de Hammett e de Ross MacDonald, cujos heróis se enquadram na categoria tipicamente americana do private eye.
Mas clássico aponta também para um período preciso: o que vai do intervalo entre as duas guerras mundiais, quando se revelaram Agatha Christie, Dorothy L. Sayers, Anthony Berkeley, Dashiell Hammett, Ellery Queen, Margery Allingham, J. D. Carr, a neozelandesa Ngaio Marsh, Rex Stout, Nicholas Blake ou Michael Innes, até autores surgidos nos anos 40 e 50, como Craig Rice, Edmund Crispin, Frederic Brown, Patricia Highsmith ou Ross MacDonald. Mesmo os autores mais recentes que integram a Colecção 9 mm Nicholas Freeling, Ruth Rendell e o português Dennis McShade (pseudónimo de Dinis Machado, autor do célebre romance O Que Diz Molero) podem ainda considerar-se anteriores à última geração de escritores policiais, que, com nomes como Sue Grafton, Sara Paretsky, Patricia Cornwell ou Donna Leon, volta a mostrar, como no tempo de Agatha Christie, um razoável predomínio de mulheres.
E, de todos os escritores representados na colecção, só falta referir E. C. Bentley, cujo O Último Caso de Trent, publicado em 1913, constitui uma peça fundamental na evolução que vai de Conan Doyle até à geração de Agatha Christie e das damas do crime. Mesmo que não existisse este pretexto histórico, a escolha seria sempre justa, já que se trata de um livro engenhoso e com a invulgar particularidade de introduzir um detective que, apesar da sua inegável capacidade dedutiva, revela uma desagradável tendência para se enganar.
Homenagem às velhas colecções de bolso
Há alguns nomes, todavia, que deveriam figurar nesta colecção e que só não estão presentes por ter sido impossível assegurar atempadamente os respectivos direitos. A ausência mais óbvia é a da britânica Agatha Christie, a rainha do crime, mas são também de lamentar, entre outras, as do francês Georges Simenon e do norte-americano Raymond Chandler.
Em contrapartida, o leitor irá ter o prazer de ler algumas obras-primas do policial há muito impossíveis de encontrar, não apenas na tradução portuguesa, mas, em alguns casos, até na língua de origem. Uma delas é o magnífico livro A Bengala de Estoque, de John Dickson Carr, um autor que teve enorme popularidade e que vem sendo injustamente esquecido. Na edição original desta novela, o editor publicou uma apreciação de Agatha Christie, onde esta afirma: “Hoje em dia, são poucos os livros policiais que conseguem baralhar-me; mas o Sr. J. D. Carr consegue-o sempre”.
Outro livro notável é o divertidíssimo Cilada Triangular, de Craig Rice. É estranho que ocorra um tal adjectivo para caracterizar uma história policial, mas, de facto, o que apetece dizer deste romance, cujos detectives são três crianças entre os 10 e os 14 anos, é que se trata de um livro encantador. Infelizmente, já só o possuirão os precavidos leitores que tiveram a felicidade de conservar os velhos volumes da saudosa colecção Escaravelho de Ouro.
É um pouco como homenagem a esta e a outras colecções da mesma época, como a XIS ou a Vampiro, uma notável sobrevivente, que vemos esta 9 mm. É verdade que os volumes ultrapassam ligeiramente o tradicional formato de bolso, mas são edições baratas, manuseáveis, e que podemos levar para a praia sem nos angustiarmos excessivamente com a ideia de que o livro se possa estragar um bocadinho.
Embora a colecção abra com o mais antigo dos autores representados, Conan Doyle, a ordem de publicação não obedece a qualquer critério cronológico. O segundo volume é o já referido romance de J. D. Carr, e segue-se Rex Stout, criador do excêntrico detective Nero Wolfe, com A Liga dos Homens Assustados. Só os diálogos entre Wolfe e o seu braço direito, Archie Goodwin, seriam motivo mais do que suficiente para se ler todos os livros de Stout protagonizados por esta dupla. A propósito: se o leitor tiver a infelicidade de deparar com uma edição (existem algumas) em que o tradutor, perante a ambiguidade do you inglês, ponha Wolfe e Goodwin a tratar-se por tu, não seremos nós quem o censurará se decidir que é seu dever deitar o livro fora.
E, já que se fala de traduções, é de justiça deixar aqui uma homenagem à tradutora desta novela de Stout: Fernanda Pinto Rodrigues. É provável que a maior parte dos leitores de policiais nem se lembre de ir ver de quem é a tradução. Mas se começar a ler algum, numa dessas velhas edições de bolso, e se se for surpreendendo com a qualidade do português, a correcção da pontuação, o domínio lexical, a oportunidade das equivalências linguísticas, designadamente no que respeita ao calão e às expressões idiomáticas, volte atrás e vá espreitar a ficha técnica: é bem provável que lá encontre o nome desta senhora.
O teste da memória
Como já se disse, faltam nesta série alguns nomes incontornáveis. Mas estas lacunas acabam por não ser muito graves, já que esta não é ou só o é acessoriamente uma colecção de bons autores policiais. É uma colecção de bons livros policiais. Mesmo os escritores mais consagrados assinaram muitas obras menos conseguidas. E alguns romancistas menores escreveram, por vezes, um ou dois romances notáveis. O principal critério desta escolha foi o da qualidade dos livros, e só secundariamente a sua relevância para a história da literatura policial ou o desejo de não excluir um nome importante.
É verdade que são poucos, ou nenhuns, os livros que ostentam no máximo grau todas as virtudes que teoricamente podemos esperar de uma novela policial. Alguns autores valem pelo seu excepcional mérito literário, outros sabem construir enredos eficazes, ou são mestres na criação de atmosferas inquietantes, ou têm, por exemplo, o seu ponto forte na capacidade de criação de personagens.
Todos os livros desta colecção estão aqui não por terem sido escritos por este ou aquele autor, mas por se lhes ter reconhecido uma ou mais destas qualidades, ou ainda outras que não foram citadas.
O leitor compulsivo de policiais sabe que, após algumas décadas de leituras, é quase inevitável que tantas centenas de histórias e enredos se comecem a amalgamar na nossa memória. Mas há alguns de que, por uma ou outra razão, nunca mais nos esquecemos. São livros memoráveis, no sentido literal. Esperamos que venha a concordar que pelo menos uma boa parte dos livros desta colecção entra nessa categoria.
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